‘Não abaixem a cabeça’, pede Flávio Bolsonaro aos aliados após crise sobre áudio com Vorcaro

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) pediu que seus aliados “não abaixem a cabeça” e afirmou, citando um versículo bíblico, que “quem é fraco numa dificuldade é realmente fraco”. No palco do lançamento da candidatura do deputado federal Guilherme Derrite (PP-SP) ao Senado, ao lado do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) e de outros aliados, ele afirmou que “está mais motivado do que nunca”.

As declarações ocorrem após as revelações, pelo portal Intercept, de áudios e mensagens nas quais ele pede dinheiro ao banqueiro Daniel Vorcaro para o filme Dark Horse, sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

Vestido uma camisa escrito “o justo viverá pela fé”, Flávio disse aos apoiadores: “Não abaixem a cabeça. Não vamos entregar o nosso Brasil para essa corja. Vamos sair daqui hoje com a consciência, com a mentalidade, que a gente não tem nada a esconder”, afirmou o pré-candidato, que havia negado relação com o Vorcaro até as revelações do site The Intercept Brasil.

Antes, Flávio procurou demonstrar entusiasmo e afastar as especulações de que poderia desistir da disputa presidencial.

“Hoje eu acordei com um versículo da Bíblia. Provérbios 24:10. Sabe o que diz? Quem é fraco em uma dificuldade, é realmente fraco. E aqui, nessas veias, tem sangue de Bolsonaro. E eu estou mais motivado do que nunca porque essa bandeira jamais será vermelha”, disse o senador.

Sem citar o nome de Vorcaro em nenhum momento de sua fala, Flávio procurou justificar os investimentos do dono do Banco Master no filme de seu pai dizendo que não pode recorrer à Lei Rouanet. Em estratégia para se contrapor a Lula, o senador citou o repasse da Agência Brasileira de Promoção Internacional do Turismo (Embratur) para a escola de samba que homenageou o petista este ano no desfile do carnaval do Rio.

Como mostrou o Estadão Verifica, no entanto, todas as 12 agremiações do grupo especial receberam R$ 1 milhão. Os recursos públicos vieram de um repasse da Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro (Liesa), proveniente de verba da Embratur. Além disso, das 12 escolas, oito receberam autorização do governo federal para captar recursos pela Lei Rouanet. A Acadêmicos de Niterói foi liberada a captar R$ 5,1 milhões, mas desistiu de levantar os recursos por causa do prazo curto até o carnaval.

Presente ao palco, o governador Tarcísio de Freitas não tratou do episódio. Apenas chamou Flávio de “futuro presidente da República”, questionou “quem vai dar o cartão vermelho para o PT em outubro” e afirmou que o Estado avançou mesmo sem apoio do governo federal.

O governador se atrasou para o evento, em razão do congestionamento causado por um acidente na estrada. Ele só subiu ao palco quando o evento já estava na metade. Por causa disso, segundo a organização, a coletiva de Flávio Bolsonaro, Derrite e Tarcísio foi cancelada.

O governador também afirmou que o futuro do País não chegará com o que classificou como anos de gestões petistas e elogiou Jair Bolsonaro.

“Ele construiu um projeto de futuro. Ele cuidou das contas, cuidou das estatais, enfrentou crises, gerou emprego, fez a diferença. Foi um grande presidente, que entrou para a história”, disse Tarcísio.

O lançamento da pré-candidatura de Derrite ocorre em meio a polêmicas envolvendo dois aliados próximos: além de Flávio, o presidente do seu partido, Ciro Nogueira (PP), que teria recebido mesada de R$ 300 mil de Vorcaro para atuar em favor dos interesses do banqueiro no Congresso, de acordo com investigações da Polícia Federal. Ciro não compareceu no evento.

Derrite pede presidente do Senado conservador

Em seu discurso, Derrite defendeu a eleição de um presidente do Senado conservador e de direita, com o argumento de que seria necessário conter o que classificou como abusos do Poder Judiciário.

Ele exaltou o ex-presidente Jair Bolsonaro, a quem chamou de melhor presidente da história, e lamentou a ausência dele e do ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL) no evento.

O deputado também intensificou críticas ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e ao partido, atribuindo ao PT décadas de “governos irresponsáveis” e acusando a legenda de adotar posições lenientes na área de segurança pública. Derrite citou a oposição petista ao fim da saída temporária de presos e ao projeto de combate às facções criminosas, do qual foi relator na Câmara.

O parlamentar ainda afirmou que sua gestão à frente da Secretaria da Segurança Pública de São Paulo conseguiu acabar com a Cracolândia.

“Só tem uma maneira da gente frear o avanço do crime organizado no Brasil: com o presidente Flávio Bolsonaro, com a maioria do Senado, com a maioria na Câmara”, disse Derrite.

Ex-secretário da Segurança Pública no governo Tarcísio, o deputado atualmente exerce mandato na Câmara e ganhou projeção nacional como relator do projeto de lei antifacção, que provocou embates com o governo federal.

Além de Flávio e Tarcísio, também participaram, por meio de mensagens exibidas em telão, o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro e o ex-vereador carioca Carlos Bolsonaro (PL). O senador Sergio Moro (União Brasil-PR), pré-candidato ao governo do Paraná, esteve presente.

A composição da chapa bolsonarista em São Paulo para 2026 prevê a candidatura de Tarcísio à reeleição, com a manutenção do vice-governador Felício Ramuth (MDB), que deixou o PSD de Gilberto Kassab em meio a desgastes relacionados à sucessão estadual.

Disputa ao Senado divide a direita

A direita vive uma divisão na eleição para o Senado em São Paulo, maior colégio eleitoral do País. Além de Derrite, Tarcísio terá em sua chapa o presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), André do Prado (PL). Mas os dois não serão os únicos candidatos do campo: o deputado federal e ex-ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles (Novo), tem dito que irá se manter na disputa ao Senado, enquanto partidos da base, como o Podemos e o PSDB, também sinalizam com candidaturas próprias.

A crise envolvendo aliados do governador piorou depois que Do Prado foi anunciado por Eduardo Bolsonaro como seu candidato à segunda vaga na chapa de Tarcísio. Parte da militância criticou a aposta em um nome não ideológico e ligado umbilicalmente a Valdemar Costa Neto, presidente do Partido Liberal.

Salles chamou de “vergonhoso” o apoio de Eduardo a André do Prado, a quem apelidou de “filhote de Valdemar”. O ex-ministro gravou um vídeo dizendo que abre mão da disputa apenas se o PL recuar da candidatura de André do Prado e lançar o vice-prefeito de São Paulo, Ricardo Mello Araújo (PL), ao Senado.

Do Prado terá como candidato a primeiro suplente Eduardo Bolsonaro, que está em autoexílio nos Estados Unidos desde o ano passado. A estratégia, como mostrou o Estadão, carrega riscos jurídicos, já que Eduardo teve o seu mandato cassado por faltas na Câmara e responde a um processo no Supremo Tribunal Federal (STF), onde é acusado do crime de coação no curso do processo.

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