Lobista diz que Lulinha marcou reunião de governador no Planalto antes de Lula anunciar pacote de R$ 59 bilhões

Mensagens apreendidas pela Polícia Federal indicam que Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, teria articulado uma reunião do governador do Maranhão, Carlos Brandão (MDB), no Palácio do Planalto, em maio de 2024. Segundo a lobista Roberta Luchsinger, o encontro estaria relacionado à liberação de uma obra no estado pelo governo federal.

As informações foram divulgadas pelo Estadão, em reportagem assinada por Aguirre Talento, Gustavo Côrtes e Vinícius Valfré. De acordo com a publicação, Roberta enviou a Lulinha um áudio em 22 de maio de 2024 informando que Brandão seria recebido naquele dia por Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, então chefe de gabinete do presidente Lula da Silva (PT).

Na mensagem, segundo a transcrição feita pela PF, Roberta afirmou que o governador iria ao Palácio do Planalto porque Lula havia dito que “vai prosseguir com aquela liberação da obra dele”. Ela também disse a Lulinha que havia avisado Brandão de que ele havia conseguido a agenda.

A reunião, de fato, consta na agenda oficial de Marcola. O encontro ocorreu naquele dia, com registro às 17h40 e participação de outros dois assessores presidenciais. O compromisso foi descrito como “Reunião Executiva”.

Pacote de R$ 59 bilhões

Cerca de um mês depois do encontro, em 21 de junho de 2024, Lula esteve em São Luís e anunciou um pacote de investimentos de aproximadamente R$ 59 bilhões para o Maranhão, dentro do Novo PAC.

Entre os projetos anunciados estavam a renovação da concessão do Porto do Itaqui, a construção de um novo berço do terminal e obras de mobilidade na Avenida Litorânea.

A coincidência temporal entre a reunião registrada no Planalto e o anúncio dos investimentos passou a integrar o contexto analisado pela investigação. A existência da reunião, porém, não comprova, por si só, que tenha havido interferência indevida ou que os investimentos tenham sido liberados em razão da atuação de Roberta ou de Lulinha.

Lobista intermediou negócios no Maranhão

A investigação da PF também identificou a atuação de Roberta em negócios envolvendo a empresa de tecnologia 3Structure It, de Cleber Ribas. Segundo o Estadão, a companhia fechou contratos de R$ 5,8 milhões com órgãos do governo maranhense em 2024.

Os contratos envolveram o Porto de Itaqui e a Secretaria de Fazenda do Maranhão. A investigação aponta ainda que Ribas teria pago pelo menos R$ 2,5 milhões à lobista entre março de 2024 e dezembro de 2025.

No âmbito federal, a 3Structure It também firmou contratos que somam dezenas de milhões de reais. Levantamento divulgado pelo Metrópoles aponta seis contratos com o governo federal, totalizando R$ 85,7 milhões, sendo que pelo menos cinco foram celebrados por meio de processos licitatórios.

Roberta também recebeu R$ 4,4 milhões

Outro ponto identificado pelos investigadores envolve pagamentos de R$ 4,4 milhões feitos à empresa de Roberta por uma companhia responsável pela administração do Hospital dos Servidores Públicos do Maranhão.

Os valores aparecem em relatório produzido pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras, o Coaf, e passaram a ser analisados no contexto das relações da lobista com empresas que mantinham negócios com o poder público.

O governo maranhense afirmou que não possui ingerência sobre empresas privadas. Já a empresa responsável pelo hospital informou que não comenta publicamente informações comerciais individualizadas relacionadas a contratos com fornecedores e prestadores de serviços.

Brandão nega relação com Roberta

Procurado pela reportagem do Estadão, Carlos Brandão negou ter relação com Roberta Luchsinger e afirmou que sua agenda não depende da articulação de terceiros.

O governador também destacou a parceria entre o Maranhão e o governo federal e afirmou que Lula é um aliado do estado, onde obras estão sendo executadas em diferentes áreas.

A defesa de Cleber Ribas afirmou que Roberta foi contratada para serviços de assessoria voltados à prospecção de clientes e identificação de oportunidades de negócios no setor de tecnologia, atividade considerada lícita pelos advogados.

A defesa de Lulinha, por sua vez, criticou o que classificou como “vazamentos seletivos” de informações da investigação e negou irregularidades. Reportagens recentes também mostram que a PF analisa mensagens envolvendo Lulinha, Roberta e Ribas em outras tratativas relacionadas a negócios com órgãos públicos.

O Palácio do Planalto foi procurado pelo Estadão, mas não se manifestou.

Relações políticas sob investigação

A PF também identificou mensagens que indicam a proximidade de Roberta com integrantes da política maranhense. Entre os contatos mencionados está o deputado federal Fabio Macedo (Podemos-MA), aliado de Brandão, além de sua esposa, Lorena Macedo.

A investigação busca esclarecer se essas relações eram exclusivamente pessoais e profissionais ou se foram utilizadas para facilitar acesso a autoridades e favorecer interesses empresariais.

No caso de Lulinha, a apuração autorizada pelo Supremo Tribunal Federal investiga suspeitas de corrupção e tráfico de influência. A defesa nega as acusações e questiona a forma como mensagens e informações sigilosas vêm sendo divulgadas.

Até o momento, a existência das reuniões e dos contratos mencionados não estabelece, isoladamente, a prática de crime. As circunstâncias dos encontros, os pagamentos e as relações entre os envolvidos permanecem sob investigação da Polícia Federal.

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