A menos de oitenta dias do prazo legal para desincompatibilização de chefes do Executivo que pretendem disputar outros cargos, o cenário presidencial passa a girar com mais intensidade em torno de dois governadores. De um lado, Tarcísio de Freitas (Republicanos), visto como nome capaz de unificar setores do Centrão, do empresariado, do agro e do mercado. De outro, Ratinho Jr. (PSD), que voltou ao centro do debate após declarações públicas indicando disposição para enfrentar o presidente Lula da Silva (PT) nas urnas.
No meio desse movimento está Gilberto Kassab, presidente nacional do PSD e secretário de Governo e Relações Institucionais de São Paulo, que atua com habilidade para manter várias opções abertas e, ao mesmo tempo, fortalecer sua própria posição no jogo político de 2026.
Tarcísio entre discurso e bastidores
Embora Tarcísio tenha afirmado publicamente que apoiará o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) na disputa pelo Planalto, nos bastidores poucos tratam essa declaração como definitiva. As articulações para empurrar o governador paulista para a corrida presidencial seguem ativas, alimentadas pela avaliação de que ele reúne condições raras de agregar forças à direita sem provocar forte rejeição fora do campo bolsonarista.
Essa indefinição mantém o cenário em aberto e cria espaço para movimentos paralelos, especialmente dentro do PSD.
Ratinho Jr. ganha tração
Nos últimos dias, Ratinho Jr. passou a falar de forma mais direta sobre a possibilidade de candidatura presidencial. O governador do Paraná afirmou que aceitaria o desafio caso seu nome seja escolhido internamente, deixando claro que a decisão depende de construção política e não apenas de vontade pessoal.
No mesmo ritmo, Kassab reforçou o discurso ao afirmar que, entre os nomes do partido, Ratinho Jr. aparece hoje em melhores condições do que o governador gaúcho Eduardo Leite (PSDB-RS), outro pré-candidato citado no radar do PSD. Para o cacique, o eleitor demonstra cansaço da polarização e busca renovação, argumento repetido pelo próprio Ratinho em suas falas públicas.
Projeto antes do nome
Apesar do estímulo, Ratinho Jr. evita se apresentar como solução única. Ele insiste que a discussão deve girar em torno de projeto político e não apenas de nomes, admitindo inclusive apoiar outro candidato que consiga maior capacidade de aglutinação nacional.
Esse discurso, embora soe como desapego pessoal, também funciona como sinalização de maturidade política em um ambiente marcado por disputas de ego.
Os interesses de Kassab
É justamente nesse ponto que a estratégia de Kassab chama atenção. Aliado direto de Tarcísio em São Paulo, o presidente do PSD nunca escondeu que o governador paulista é seu nome preferido para a Presidência. Caso consiga convencê-lo a disputar o Planalto, Kassab já admite publicamente a possibilidade de se lançar candidato ao governo paulista.
Se, por outro lado, Tarcísio optar pela reeleição em São Paulo, Kassab trabalha para se fortalecer como peça central da chapa, mirando ao menos a vaga de vice-governador. O atual vice, Felicio Ramuth (PSD-SP), foi alçado ao cargo justamente por articulação direta do dirigente partidário em 2022.
Cartas na mesa
Ao estimular o nome de Ratinho Jr., Kassab amplia suas alternativas e aumenta seu peso nas negociações. Com mais de uma carta competitiva sobre a mesa, ele se coloca como ator indispensável tanto em um eventual projeto presidencial quanto na disputa estadual paulista.
Pesquisas recentes indicam que tanto Tarcísio quanto Ratinho Jr. teriam desempenho competitivo contra Lula em um segundo turno, dado que reforça a relevância dos dois governadores no debate nacional.
No fim das contas, o jogo montado por Kassab não se resume a escolher um candidato, mas a garantir que, qualquer que seja o desfecho, o PSD e seu principal cacique estejam no centro do poder.
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