Quase 80 mil famílias, mais de 220 mil pessoas, começaram a aparecer nos mapas do Estado após a retomada do SISFamílasDaiane ainda lembra do período em que estudava, cuidava do filho pequeno e tentava equilibrar a vida na Reserva Extrativista do Rio Cautário, em Rondônia, com uma rotina de incertezas. Casada ainda muito jovem, mãe antes dos vinte anos, ela dividia o tempo entre a família, a faculdade e as dificuldades próprias de quem vive longe dos centros urbanos, em uma região onde acesso a direitos nem sempre é pleno.
A floresta sempre esteve ali. O rio também. O trabalho da comunidade, a vida compartilhada, o cuidado com o território, tudo existia. O que não existia, quase sempre, era presença do Estado.
Hoje, agente temporária ambiental do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e participante do levantamento do SISFamílias, Daiane conhece essa realidade dos dois lados: como moradora de unidade de conservação (UC) federal e como alguém que bate de porta em porta registrando famílias que, durante décadas, viveram praticamente fora do radar institucional.
“É uma importância muito grande”, resume ela ao falar do sistema. “Porque, através desse levantamento de dados, a gente tem mais facilidade em acessar políticas públicas”, conclui Daiane.
A frase parece simples, mas ajuda a explicar uma das transformações silenciosas mais importantes ocorridas nos territórios de populações tradicionais nos últimos anos: o surgimento do SISFamílias – um sistema concreto de informações sobre quem são, onde vivem e do que precisam milhares de famílias que ocupam, protegem ocupam e dependem diretamente das UCs brasileiras.
Durante muito tempo, o Brasil protegeu territórios sem necessariamente enxergar, de forma organizada, as pessoas que viviam neles.
Entre rios amazônicos, manguezais, ilhas, florestas, restingas e reservas extrativistas, milhares de famílias permaneceram invisíveis nos sistemas oficiais. Muitas tinham dificuldade de acessar documentação básica. Outras estavam fora de programas sociais. Algumas sequer apareciam nas estatísticas públicas.
A invisibilidade tinha consequências práticas.
Sem informação estruturada, políticas públicas mal chegavam. Energia elétrica, conectividade, água tratada, acesso a documentação, inclusão produtiva, educação, programas de transferência de renda e segurança alimentar frequentemente esbarravam em um obstáculo anterior a qualquer ação governamental: o desconhecimento.
Como construir política pública para pessoas que sequer aparecem?
Foi para responder a essa pergunta que nasceu o SISFamílias.
Criado em 2014 pelo Instituto Chico Mendes, o sistema surgiu com um objetivo ambicioso: identificar, mapear e organizar informações sobre populações tradicionais residentes ou beneficiárias de UCs federais. Mas a ideia levou um tempo para ganhar musculatura.
Nos primeiros anos, a ferramenta existia mais como intenção do que como capacidade efetiva de transformação. Havia limitações operacionais, dificuldades tecnológicas, orçamento restrito e interrupções do trabalho de campo. O sistema existia, mas ainda não conseguia alcançar o território na escala necessária.
Enquanto isso, as famílias permaneciam “invisíveis”.
“São cidadãos brasileiros que muitas vezes não é que são esquecidos pelo Estado; não são nem conhecidos pelo Estado”, resume Mara Notthingham, coordenadora do SISFamílias e de Informações para o Bem Viver do ICMBio. A frase ajuda a entender a complexidade do tema.
Em algumas localidades, equipes encontraram famílias sem documentação básica, pessoas sem CPF, comunidades fora do Cadastro Único, moradores sem acesso regular a serviços elementares. Não porque não existissem necessidades, mas porque faltava algo anterior: reconhecimento.
Sem nome, sem localização, sem informação, não há política pública.
A virada começou a ganhar escala nesta gestão, em 2023, quando o trabalho de campo foi retomado e transformado em prioridade institucional. Equipes passaram a percorrer rios, estradas, trilhas e comunidades isoladas, visitando famílias uma a uma. Um processo não se limita a preencher formulários: envolve escuta, reconhecimento territorial, validação comunitária e articulação local.
Mara explica que o SISFamílias é ao mesmo tempo uma ação e uma plataforma. “A gente vai para campo, visitando de casa em casa, com equipe treinada de entrevistadores, buscando reconhecimento dessas populações”, coloca.
Levantamento de famílias na Reserva Extrativista Marinha de Tracueteua (PA) – Foto: Elias Lopes
De casa em casa
“De casa em casa”: essa expressão aparece repetidamente nas falas de quem constrói o sistema e talvez seja ela que melhor descreva a diferença entre uma política desenhada à distância e uma política construída no território. Não se trata apenas de gerar números. Trata-se de enxergar pessoas.
Hoje, o SISFamílias reúne informações de quase 80 mil famílias em unidades de conservação federais, somando mais de 220 mil pessoas identificadas – número que continua crescendo e deve avançar ainda mais nos próximos anos.
Na prática, os dados revelam onde estão essas famílias, há quanto tempo vivem no território, de quais atividades sobrevivem, quais serviços acessam e, principalmente, quais ainda não acessam.
Para Kátia Torres, diretora de Ações Socioambientais e Consolidação Territorial (DISAT) do ICMBio, “a primeira colheita desse trabalho foi colocar à vista essas pessoas”. E colocar pessoas à vista muda o que o Estado consegue fazer.
Quando existe uma base robusta de informações, torna-se possível articular diferentes ministérios, outros órgãos públicos, planejar investimentos, qualificar a cobertura de programas sociais e chegar a territórios historicamente ignorados – e muitas vezes, mais vulneráveis.
A consequência aparece na ponta
Na Reserva Extrativista do Médio Purús, Benedito Clemente lembra de um tempo em que sua família praticamente não tinha qualquer amparo.
O cadastro veio depois. Vieram documentos. Vieram políticas. Vieram mudanças que quem já vive com infraestrutura talvez não entenda o impacto, mas que são de grande dimensão quando falamos das famílias em UCs.
“Hoje nós temos água, temos banheiro. Melhorou muito através disso daí”, fala Benedito sobre poder ter um cotidiano mais previsível, confortável e em condições sanitárias adequadas.
Em outra fala, descreve algo aparentemente banal, mas profundamente simbólico: a possibilidade de organizar o mês. “Antes as pessoas não tinham aquela data de sair para fazer o rancho. Hoje já tem aquela data, já faz economia, compra mercadoria”, diz.
Em muitos desses territórios, a distância de centros urbanos exige horas (às vezes dias) de deslocamento. A renda é baixa, o acesso é penoso, os serviços não chegam com facilidade. Uma política pública mal planejada simplesmente não funciona.
É justamente aí que o SISFamílias demonstra importância estratégica.
Ao organizar dados territorializados e dialogados com as comunidades, o sistema permite que as ações sejam desenhadas de forma muito mais precisa.
Legitimidade dos próprios territórios
O reconhecimento das famílias não acontece apenas de cima para baixo. Depois da coleta de dados, as informações passam por processos de validação comunitária, envolvendo associações locais, conselhos gestores e lideranças. É um mecanismo pensado para garantir que a base reflita realidades reconhecidas pelos próprios moradores.
Esse cuidado é central porque não se trata apenas um cadastro. Trata-se de reconhecer modos de vida. Populações extrativistas, ribeirinhas, pescadoras artesanais, quilombolas, caiçaras, indígenas, seringueiros, marisqueiras e outros grupos tradicionais não aparecem apenas como ocupantes de um mapa: aparecem como sujeitos de direitos e como protagonistas da conservação.
Existe, inclusive, uma mudança simbólica importante nessa lógica.
Durante muito tempo, a conservação ambiental foi frequentemente retratada como oposição à presença humana.
O SISFamílias ajuda a contar outra história: a de pessoas que não ameaçam a floresta – dependem dela. Pessoas cuja sobrevivência está ligada diretamente ao equilíbrio do território.
Benedito resume isso quase como uma filosofia cotidiana: “Uma das coisas mais importantes é preservar o meio ambiente. É de onde a gente tem o sustento e a saúde”, reflete.
Na visão de Kátia Torres, reconhecer essas famílias significa fortalecer também a própria conservação. “São guardiões das nossas áreas protegidas”, afirma.
O impacto do sistema ultrapassa o ICMBio
No Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), os dados do SISFamílias tornaram-se uma ferramenta importante de planejamento para operações de campo co m populações tradicionais e m unidades de conservação , especialmente diante dos desafios de mapear regiões historicamente isoladas ou de difícil acesso.
Para a coordenadora técnica do Censo de Povos e Comunidades Tradicionais do IBGE , Marta Antunes, o sistema ajuda a preencher lacunas que, durante muito tempo, dificultaram a identificação dessas populações.
“O SISFamílias constitui uma importante fonte de subsídio para as operações de campo do IBGE” , afirma. Segundo ela, a base tem grande potencial para fortalecer o planejamento das pesquisas estatísticas ao oferecer uma lista territorializada de famílias e localidades que muitas vezes não apareciam com precisão suficiente nos levantamentos regulare s.
Na prática, isso significa ampliar a capacidade do Estado de chegar onde antes mal chegava – quando chega va.
Marta explica que, embora o IBGE já considere UCs em sua metodologia, esta é a primeira vez que o instituto realiza uma investigação nacional abrangendo diferentes povos e comunidades tradicionais em escala tão ampla. Nesse contexto, os dados do SISFamílias s ão particularmente valiosos.
Existe ainda outra dimensão importante: nem sempre as famílias dependentes das unidades vivem exatamente dentro de seus limites geográficos formais.
Equipe do SISFamílias durante atividade de campo para identificação de famílias em unidade de conservação – Foto: Heloise Fruchi
“O SISFamílias amplia a compreensão sobre os vínculos territoriais e socioeconômicos dessas populações” , explica a coordenadora técnica . Em outras palavras, ajuda a explicitar uma realidade que ultrapassa linhas desenhadas em mapas: famílias que mantêm seus modos de vida diretamente ligados ao território protegido, mesmo quando vivem em suas bordas ou arredores.
Mas talvez o aspecto mais poderoso do SISFamílias não esteja nos números. Embora impressionem – 75.661 famílias, 219.812 pessoas identificadas – eles não contam tudo.
Mas sim aquilo que os números representam : uma mãe jovem que conseguiu apoio enquanto estudava ; uma família que passou a ter banheiro ; uma comunidade finalmente localizada ; uma pessoa que faz o CPF e começa existir formalmente ; uma reserva onde políticas públicas começam a chegar porque houve planejamento ; uma população que, depois de décadas de invisibilidade, finalmente pode ser considerada.
Daiane costuma dizer que participar do levantamento foi um sucesso porque as famílias começaram a entender o significado daquele momento. Nem todas compreendiam, inicialmente, por que alguém aparecia perguntando sobre renda, moradia, atividades produtivas ou composição familiar.
Mas, pouco a pouco, algo fazia sentido. Ser visto importa.
“Ali a gente explicou o que significava aquele levantamento de dados, explicamos a importância” , lembra ela, contando ainda que muitas famílias deram um resultado positivo em receber os agentes.
O gesto p ode parecer pequeno. Mas e xist e algo profundamente brasileiro e profundamente político acontecendo. O instante em que alguém, pela primeira vez, percebe que o Estado sabe que ela existe.
Porque, ao fim, as famílias das unidades de conservação nunca estiveram ausentes. Sempre estiveram al i. Protegendo territórios, produzindo alimentos, criando filhos, preservando modos de vida, sustentando uma biodiversidade que beneficia toda a sociedade.
O que mudou foi outra coisa : depois de décadas invisíveis, elas começaram, graças ao SISFamílias , a aparecer.
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