Irã vive dia mais sangrento desde início dos protestos e impõe apagão nacional da internet

O Irã atravessou nesta semana o que organizações de direitos humanos classificam como o dia mais sangrento desde o início da nova onda de protestos que varre o país. Manifestações motivadas pela grave crise econômica e pela desvalorização histórica da moeda nacional foram reprimidas com violência, resultando em dezenas de mortes, centenas de feridos e milhares de prisões, além de um apagão quase total da internet imposto pelo regime.

Os atos começaram no mês passado, em Teerã, e rapidamente se espalharam para todas as 31 províncias iranianas. O estopim foi o fechamento de um tradicional mercado na capital, após o colapso do rial, símbolo do aprofundamento da crise econômica agravada por anos de sanções internacionais e pelos efeitos recentes do conflito com Israel.

Repressão com aumento de mortes

Entidades de direitos humanos relatam que forças de segurança abriram fogo contra manifestantes em diversas cidades. Somente em um único dia, ao menos 13 pessoas teriam sido mortas, incluindo menores de idade, elevando o número total de vítimas fatais para pelo menos 45 desde o início da repressão mais dura.

Além das mortes, há relatos de hospitais invadidos por agentes do Estado para prender manifestantes feridos, prática que reforça denúncias de uso ilegal da força contra civis. As prisões já ultrapassariam a marca de 2.000 pessoas, segundo organizações independentes.

As cenas de violência se multiplicaram em cidades estratégicas, como Tabriz e Bandar Abbas, onde comércios e bazares fecharam as portas em sinal de protesto. Em Teerã, multidões ocuparam grandes avenidas, desafiando a repressão e ampliando o questionamento sobre a legitimidade do governo islâmico.

Governo endurece discurso 

Enquanto setores do governo tentam adotar um discurso mais moderado, pedindo distinção entre manifestantes e grupos considerados hostis ao regime, o tom predominante segue sendo de endurecimento. Autoridades do Judiciário deixaram claro que não haverá tolerância com quem, segundo elas, colabora com inimigos externos.

A retórica oficial acusa potências estrangeiras de tentar desestabilizar o país, enquanto o líder supremo, Ali Khamenei, afirmou que não irá recuar diante das manifestações e acusou os protestos de servirem a interesses externos.

No plano internacional, a escalada da violência provocou reações. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ameaçou responder com força caso o governo iraniano avance ainda mais na repressão, enquanto lideranças europeias condenaram o uso excessivo da força contra civis.

Apagão digital isola o país

Como parte da estratégia para conter a mobilização popular, o regime impôs um apagão nacional da internet. Monitoramentos indicam queda de cerca de 90% no tráfego de dados, mantendo acesso restrito apenas a estruturas do governo e das forças de segurança.

A medida dificulta a circulação de informações, imagens e relatos sobre a repressão, repetindo um padrão já adotado em protestos anteriores. Com o país praticamente isolado do mundo digital, cresce a preocupação internacional sobre o que ocorre dentro das fronteiras iranianas.

Os protestos atuais já são considerados os maiores desde as manifestações de 2022 e 2023, desencadeadas pela morte de Mahsa Amini sob custódia policial. Agora, porém, o foco central é a deterioração das condições de vida, o desemprego e a perda do poder de compra da população.

A combinação de crise econômica profunda, repressão violenta e isolamento digital aprofunda o desgaste do regime e sinaliza um cenário de instabilidade prolongada. Mesmo diante do cerco estatal, a oposição no exílio convoca novos atos, enquanto cresce a pressão para que a comunidade internacional atue de forma mais incisiva.

O Irã, mais uma vez, se vê diante de um impasse histórico, entre a força do aparato repressivo e uma sociedade que demonstra não aceitar mais o custo de um sistema em colapso.

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