A escalada de tensões entre Caracas e Washington levou o regime de Nicolás Maduro a promover, nas últimas semanas, uma das mais intensas demonstrações de força militar já vistas desde o início da crise venezuelana. Em rede nacional e nas plataformas oficiais das Forças Armadas Nacionais Bolivarianas (FANB), o governo chavista exibe manobras, sobrevoos e reforço de defesas estratégicas para mostrar que está pronto para resistir a uma eventual ofensiva dos Estados Unidos.
A resposta veio após o presidente americano declarar, no sábado (29), que o espaço aéreo venezuelano deve ser considerado “totalmente fechado”. A chancelaria venezuelana classificou a fala como “ameaça colonialista”, ampliando o tom de confronto.
Defesa da capital
A capital Caracas se tornou o principal foco das medidas de reforço. Ao longo da rodovia Caracas–La Guaira, considerada a única rota terrestre viável para se alcançar o núcleo político do país, o governo instalou dezenas de barreiras antiveiculares do tipo “ouriço”, ampliadas ao longo do mês. Imagens recentes mostram maquinário militar posicionando os obstáculos em pontos onde veículos blindados seriam obrigados a desacelerar — um gargalo estratégico para qualquer invasão.
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Em pronunciamento pela TV estatal, Maduro apresentou um “plano de defesa abrangente”, descrevendo como armas e sistemas seriam distribuídos “rua por rua, comunidade por comunidade” ao longo do corredor Caracas–La Guaira.
Sistemas de defesa aérea em evidência
Frente à chegada de aeronaves americanas ao Caribe, o regime venezuelano multiplicou a divulgação de vídeos e fotos de seus sistemas antiaéreos. Entre os equipamentos exibidos estão:
- Radar russo P-18-2M, posicionado próximo a Caracas;
- Sistemas Buk-M2E, de médio alcance;
- Pechora S-125, de menor alcance, mostrado em manutenção por soldados;
Por outro lado, plataformas mais sofisticadas, como os mísseis S-300, desapareceram da propaganda oficial, alimentando especulações sobre sua real capacidade operacional.
Um voo recente vindo da Rússia — cujo conteúdo permanece sob sigilo — teria transportado equipamentos como novos sistemas Pantsir-S1 e mais unidades do Buk-M2E, segundo afirmou o parlamentar russo Alexei Zhuravlev ao jornal Gazeta.ru.
Treinamentos ampliados e exercícios com munição real
Nos campos de treinamento, a FANB reforça a prontidão das tropas. Na Academia Militar, soldados simulam ataques com drones usando até videogames populares como ferramenta improvisada de preparação.
Em outro ponto do país, militares realizaram exercícios com munição real próximos a uma ilha desabitada a menos de 40 quilômetros de onde navios americanos estiveram recentemente ancorados em Trinidad e Tobago.
A mobilização inclui ainda campanhas de alistamento da milícia bolivariana, convocada por Maduro como força auxiliar. O líder chavista afirma que o grupo já chega a 8 milhões de integrantes — número contestado por especialistas, que duvidam da real dimensão e do treinamento dos voluntários.
Poder aéreo vai às ruas e aos céus
Enquanto isso, civis em cidades como Maracay e na turística Ilha Margarita presenciaram demonstrações de poder aéreo. Caças F-16 e Su-30, que representam parcela significativa da frota operacional venezuelana, sobrevoaram centros urbanos, museus e áreas comerciais.
Especialistas apontam que o uso intenso desses aviões — muitos sem manutenção adequada por falta de peças — mostra mais uma estratégia de impacto visual que de real capacidade de enfrentamento frente às forças americanas, que também realizaram demonstrações aéreas e navais no Caribe nos últimos dias.
Alerta internacional
Embora reconheçam que os EUA têm esmagadora superioridade militar, analistas afirmam que Caracas trata o momento como uma possível batalha existencial para a sobrevivência de Maduro no poder. Para o diretor do Programa das Américas do CSIS, Ryan Berg, ninguém deve subestimar completamente as capacidades venezuelanas, sobretudo em um conflito de resistência.
Com cada movimento amplificado nas redes e na propaganda estatal, o regime chavista procura reforçar a mensagem de que está disposto a confrontar Washington — ainda que, na prática, dependa de um arsenal limitado e de aliados estratégicos como a Rússia para sustentar sua posição.
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