Três hipóteses sobre o desempenho do governo na economia, qual o problema e o que fazer – PT

Por Aluã Carmo
AS TRÊS HIPÓTESES
Há hoje, no PT, três visões principais sobre os resultados da última pesquisa Quaest que avaliou as percepções do nosso povo sobre economia.
A primeira hipótese considera que, tendo em vista os dados como crescimento do PIB, desemprego e massa salarial, Lula sairá vitorioso da eleição. Essa visão já foi apresentada por figuras com papel central no Governo Lula 3 e é uma leitura simplificada da realidade. Segundo essa visão, a partir de um conjunto de dados, a eleição está ganha. O povo perceberá que sua vida melhorou, que os salários aumentaram e que a inflação diminuiu. O povo olhará para esses números e votará em Lula. Simples assim.
Em contraposição a essa visão, surge uma segunda hipótese: a economia vai bem, basta que olhemos esses indicadores. O problema seria que a extrema direita teria um poder de moldar a realidade a partir de uma disputa desigual em redes sociais e meios de comunicação. Segundo essa visão, a Classe Trabalhadora teria a sua consciência capturada pelas fake news e pela grande mídia e estaria moldando sua percepção da realidade econômica, sobre a inflação e o desemprego, etc. Caberia à esquerda, então, uma disputa de comunicação para que o povo trabalhador perceba que a vida melhorou. Segundo essa segunda hipótese, o principal problema não é a realidade do povo trabalhador, mas a percepção do povo sobre sua própria realidade.
Numa outra variante, mais radical, dessa segunda hipótese, a Classe Trabalhadora estaria moldando a própria realidade a partir dessa consciência capturada. A inflação de alimentos existiria por uma profecia autocumprida da inflação, por exemplo. E o preço dos combustíveis seria também fruto dessa grande pressão no campo das ideias.
Abro um parêntese para afirmar que não nego a força da comunicação, da mídia e das fakenews. Apenas não atribuo a elas um poder mágico.
Em 2018, uma parte do nosso campo atribuiu nossa derrota às fake news, como se no Nordeste não tivesse Facebook e Whatsapp. Busco mais respostas na política do que em elementos extraordinários.
Gostaria de me posicionar junto a uma terceira visão: a de que a Classe Trabalhadora mais acerta que erra em sua percepção da realidade.
Assim, devemos olhar melhor para esses dados que tentam nos aproximar da “realidade factual”. O índice de desemprego não mede a sub ocupação, o desemprego por desalento, a ocupação desqualificada (o engenheiro que é motorista de aplicativo, por exemplo). Como diria Maria Conceição Tavares, ninguém come PIB. O pico de inflação de alimentos do Governo Bolsonaro já passou, mas não tivemos uma deflação de alimentos que retornasse os alimentos ao seu valor nominal anterior.
Também devemos olhar para outros dados, como o endividamento de 67% dos brasileiros (sendo 21% com dívidas em atraso). Esse endividamento é provocado, sim, pela taxa SELIC, mas principalmente pelo spread bancário, pelas taxas praticadas pelos bancos na ponta. Nesse cenário de estrangulamento das finanças domésticas, 29% dos brasileiros recorrem habitualmente a apostas esportivas.
QUAL O PROBLEMA?
Então, primeiramente, façamos algumas observações sobre a Quaest de abril, que acendeu o nosso farol amarelo:
A última pesquisa presidencial da Quaest foi coletada entre 9 e 12 de abril.
Em março, tivemos um INPC (que mede a inflação para quem ganha até 5 salários mínimos) de 0,91% no mês, que foi divulgado no dia 10 de abril. O IPCA de 0,88% em março também foi divulgado no dia 10 de abril. Vale destacar que o IPCA de fevereiro foi de 0,7% e, em apenas três meses, já temos um acumulado de 1,92% no IPCA em 2026.
Também destaco que colabora com a perspectiva de piora da economia, o fato do plano real não ter desindexado a inflação do IPCA. Isso quer dizer que uma inflação pontual, por guerra ou por intempérie climática, se reproduzirá na próxima década através dos contratos vinculados a índices de inflação. Um terrível efeito cascata.
Por um lado é inegável o alto índice de inflação provocado pela Guerra do Irã (e pela dependência do Brasil sobre o preço internacional do petróleo provocada por Temer e Bolsonaro). Por outro, é fácil supor que a divulgação de tal índice no período de coleta da pesquisa ajudou a pressionar a percepção da inflação de alimentos (“no mercado”) para o nível dos 72% que vimos na referida pesquisa.
Outro ponto que vale a pena ser apresentado é que o atual ciclo de alta da SELIC começa entre 09/2024 e 11/2024. E que, pelo que se deduz do que seria o modelo econométrico do Banco Central, estaríamos vivendo hoje, 18 meses depois, os reflexos do início desse aumento da taxa de juros.
O que é inegável na leitura da pesquisa é uma percepção de piora em relação à economia. Acredito, então, que o nosso papel seja investigar o que causa esse resultado na pesquisa especialmente a partir de março/2026.
Não podemos ignorar o IPCA, que já acumula 1,92% em 2026. Ficará para um próximo texto a explanação sobre quais itens são responsáveis pelo aumento do IPCA (e, principalmente, do INPC), para além dos combustíveis e quais os impactos desses produtos na cesta de consumo dos brasileiros.
Não devemos ignorar, também, o endividamento das famílias, bem como o super endividamento. Assim como os gastos com apostas esportivas.
É, também, importante destacar que assumimos o Governo sob alta expectativa da população, que sonha em reviver um Governo Lula 2 ou Dilma 1. A desregulamentação do mundo do trabalho e a precarização existem, assim, como vetor em sentido contrário: grande parte dos trabalhadores que se especializaram e seguem fora do seu ramo de trabalho ou da função para a qual estudou é um fator importante a ser levado em conta.
Entretanto, é nítido que o Governo precisou “arrumar a casa” antes de apresentar uma agenda mudancista para o país. A destruição das políticas públicas que ocorreu nos 6 anos anteriores obrigou o governo Lula 3 a retomar agendas que o Brasil já tinha superado, como o fim da fome, seu lugar na geopolítica, a valorização do salário mínimo, uma política de desenvolvimento industrial, políticas sociais, política de vacinação, etc.
O QUE FAZER
Assim, a vitória de Lula na reeleição depende de, fundamentalmente, dois fatores:
1- Comparação do nosso governo com o governo anterior, que foi o governo da fome e da destruição de direitos, da alta inflação de alimentos, da reforma da previdência e do ataque à valorização dos salários;
2- Apresentação de uma política que atenda aos anseios do povo trabalhador, retomando a esperança e com um programa que desenvolva o Brasil.
Assim, avalio que alguns caminhos devem ser seguidos:
O primeiro desses caminhos é ter por eixo central da campanha um forte conteúdo nacional, de soberania, que contraponha o projeto da Classe Trabalhadora e seus aliados ao projeto da Faria Lima, do Brasil-Fazenda e dos representantes do imperialismo. Nesse sentido cabe ênfase em propostas de nacionalização da produção e distribuição dos combustíveis, tendo a Refinaria Abreu e Lima como exemplo. Também nesse sentido é importante colocarmos como bandeira a criação da Terra Bras, empresa pública de terras raras, assim como o questionamento da venda da Serra Verde à USA Rare Earth junto aos órgãos competentes.
Também é central atacar a inflação de alimentos. Hoje somos muito expostos às intempéries climáticas e ao mercado internacional. Os estoques reguladores da CONAB estão lotados e a própria formulação da política não dá conta da inflação das carnes ou de frutas e verduras, por exemplo. É central que mudemos a nossa política de estímulo à produção de alimentos, reduzindo o foco no crédito (que mantém a produção como uma resultante da demanda do mercado) e focando em compra antecipada da produção para posterior venda para a cadeia de beneficiamento de cada alimento.
Importante mantermos a denúncia sobre os juros altos do Banco Central, assim como definirmos que os bancos públicos praticarão taxas menores que o mercado. É central apresentarmos um novo “desenrola”, mais profundo, e que apresente condições semelhantes às que damos às repactuações de dívidas do agronegócio. A atual taxa de juros combinada ao endividamento das famílias piora as condições de consumo ao mesmo tempo que atrapalham o desenvolvimento.
Por fim, a nossa agenda nacional, de soberania, deve ter um forte componente de desenvolvimento tecnológico e econômico. Precisamos apresentar como, a partir dessa agenda, geraremos empregos de qualidade e engajaremos a Classe Trabalhadora nesse processo de desenvolvimento.
Se permitiremos que empresas estrangeiras se instalem no Brasil para fabricar chips como condição para a utilização de terras raras, a construção desses pólos tecnológicos e a operação deve ser feita por brasileiros e brasileiras. Se faremos um acordo para permitir Data Centers estrangeiros em solo brasileiro, sob a condição de transferência de tecnologia, as Universidades devem ser convocadas para participar desse processo e devemos ampliar a estrutura de processamento e armazenamento de dados no Brasil.
O que precisamos, antes de qualquer tática, é apresentar à Classe Trabalhadora uma política acertada. Devemos apresentar que estávamos arrumando a casa e muito fizemos. Que não há comparação possível que apresente vantagem ao governo anterior.
Entretanto devemos reconhecer que, também por essa condição que assumimos, nosso governo tem limites. Precisamos de mais quatro anos para aprofundar a melhoria das condições de vida do nosso povo.
Assim, devemos apresentar a nossa política para 2027-2030: uma política nacionalista, de soberania e desenvolvimento econômico e social. Lula 4 será ainda melhor que Lula 3; assim como Lula 2 foi muito melhor que Lula 1. Não há dúvida de que enterraremos de vez o Bolsonarismo como alternativa eleitoral ao nosso projeto de Brasil.

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