A ampliação da infraestrutura logística brasileira ganhou um novo capítulo com o avanço da Ferrovia Estadual Senador Vicente Emílio Vuolo, conhecida como Ferrovia de Mato Grosso. Considerada atualmente a maior obra ferroviária em execução no país, o empreendimento avança em ritmo acelerado, chegando a registrar a instalação de trilhos e dormentes em até um quilômetro por dia em determinados trechos.
Com extensão total prevista de 743 quilômetros, a ferrovia ligará Rondonópolis a Lucas do Rio Verde, um dos principais polos do agronegócio brasileiro, além de contar com um ramal até Cuiabá. O projeto inclui a construção de 22 pontes ferroviárias, 21 viadutos e diversas estruturas operacionais voltadas ao transporte de cargas.
A primeira etapa da obra contempla um trecho de 162 quilômetros entre Rondonópolis e o terminal da BR-070, em Dom Aquino, na região de Campo Verde. O investimento estimado apenas nesta fase supera R$ 5 bilhões.
A inauguração do terminal intermodal da BR-070 e do primeiro trecho ferroviário está prevista para 19 de junho de 2026. Segundo informações divulgadas pela concessionária responsável pelo projeto, a operação comercial deverá começar entre o terceiro trimestre deste ano e o início do segundo semestre, após a conclusão dos testes operacionais e da integração com a malha ferroviária existente.
A expectativa é que a nova ferrovia se torne um importante corredor logístico para o escoamento da produção agrícola de Mato Grosso, estado que lidera a produção nacional de soja, milho e algodão. Além disso, o empreendimento deverá gerar mais de cinco mil empregos diretos e indiretos durante sua execução.
Especialistas apontam que a expansão da malha ferroviária é uma das medidas mais importantes para reduzir o chamado “Custo Brasil”, expressão utilizada para definir os entraves estruturais que elevam as despesas de produção, transporte e comercialização no país.
Dados frequentemente utilizados pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) e pelo Movimento Brasil Competitivo estimam que o Custo Brasil representa cerca de R$ 1,7 trilhão por ano, equivalente a aproximadamente 19,5% do Produto Interno Bruto (PIB).
Atualmente, a matriz de transporte brasileira é fortemente concentrada nas rodovias. Essa dependência ficou evidente durante a greve dos caminhoneiros de 2018, quando a paralisação provocou desabastecimento em diversas regiões do país e impactou diretamente setores produtivos e consumidores.
Além dos ganhos econômicos, o transporte ferroviário também apresenta vantagens ambientais. Estudos acadêmicos apontam que o deslocamento de grandes volumes de carga por trens pode reduzir significativamente os custos logísticos e diminuir as emissões de gases de efeito estufa em comparação ao transporte rodoviário.
A construção da Ferrovia de Mato Grosso também representa um movimento de retomada de investimentos em um modal que já foi protagonista da economia brasileira. Dados históricos do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) mostram que o Brasil possuía cerca de 38 mil quilômetros de trilhos no auge da expansão ferroviária, na década de 1960.
Com o fortalecimento da indústria automobilística e a expansão das rodovias a partir da segunda metade do século XX, o transporte ferroviário perdeu espaço gradativamente. Nas últimas décadas, no entanto, a busca por maior competitividade logística voltou a colocar os trilhos no centro das discussões sobre desenvolvimento econômico.
Quando concluída, a Ferrovia de Mato Grosso deverá ampliar a capacidade de transporte de cargas do país, fortalecer a integração logística do Centro-Oeste e consolidar uma nova alternativa para reduzir custos, aumentar a eficiência do escoamento da produção e estimular investimentos em infraestrutura de longo prazo.
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