O governo do presidente Lula da Silva (PT) chega a 2026 carregando uma contradição política difícil de disfarçar. Enquanto tenta vender ao eleitorado a imagem de um governo socialmente ativo, grande parte do seu pacote de medidas com apelo eleitoral permanece emperrada no Congresso Nacional.
Apesar de ter conseguido aprovar em 2025 duas vitrines relevantes, a ampliação da isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil e a tarifa social de energia elétrica, o Planalto fracassou em emplacar uma série de propostas consideradas estratégicas para a disputa eleitoral que se aproxima.
Agenda popular empacada
Temas de forte apelo junto à opinião pública, como o fim da escala 6×1, a tarifa zero no transporte público, a regulamentação dos trabalhadores de aplicativos e o programa Gás do Povo, seguem sem desfecho legislativo. A maioria dessas propostas depende de embates diretos com o centrão, que tem se mostrado cada vez menos disposto a servir de linha auxiliar ao PT em ano eleitoral.
A situação é ainda mais delicada na área da segurança pública, apontada reiteradamente como a principal preocupação do eleitor. A PEC da Segurança Pública e o chamado PL Antifacção, defendidos pelo governo como resposta ao avanço do crime organizado, acabaram se transformando em campo de batalha ideológica entre esquerda e direita, travando qualquer avanço concreto.
Disputa eleitoral contamina o Parlamento
Com o calendário eleitoral encurtando o funcionamento do Congresso em 2026, a avaliação interna no Planalto é de que o ambiente político tende a se deteriorar ainda mais. A contaminação da pauta legislativa pela campanha reduz drasticamente as chances de o governo formar maioria estável para aprovar projetos sensíveis.
O próprio líder do PT na Câmara, Lindbergh Farias (PT-RJ), reconhece o risco e tenta sustentar um discurso otimista, apostando no impacto imediato da isenção do IR e defendendo que o governo concentre esforços em poucas propostas simbólicas. Nos bastidores, porém, a orientação é clara: acionar o Congresso o mínimo possível para evitar novas derrotas públicas.
Base frágil e cobranças internas
Já o líder do governo na Câmara, José Guimarães (PT-CE), admite que o Planalto ainda depende da fidelidade parcial de partidos do centrão que ocupam ministérios, mas não entregam votos de forma consistente. A cobrança foi feita de forma direta pelo próprio presidente Lula na última reunião ministerial do ano.
Guimarães sustenta que a relação com a Câmara está mais “tranquila” e fala em costurar uma base mínima de 257 votos, número necessário para aprovar matérias relevantes. Na prática, trata-se de uma meta ambiciosa diante do histórico recente de derrotas do governo no Legislativo.
Derrotas que pesam
Em 2025, o governo viu ruir decretos e medidas centrais, como o aumento do IOF, vetos ao licenciamento ambiental e uma MP de elevação de impostos. Também assistiu à aprovação de pautas contrárias à sua narrativa, como a redução de penas para condenados por atos golpistas, a chamada PEC da Blindagem e um PL Antifacção desenhado pela oposição.
Mesmo iniciativas que avançaram, como a taxação de bets, fintechs e super-ricos, só passaram após forte desgaste político e campanhas públicas contra o próprio Congresso, acusado pelo PT de proteger os mais ricos.
Vitrine eleitoral incompleta
Ao final, o governo entra no ano decisivo com uma vitrine eleitoral incompleta. Conseguiu aprovar medidas de impacto direto para milhões de brasileiros, mas falhou em transformar promessas populares em realidade legislativa ampla.
Com o relógio correndo e o Congresso cada vez mais refratário, Lula chega a 2026 pressionado a fazer campanha com o que já entregou, e não com o que prometeu.
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