Guerra no Irã coloca economia dos Emirados Árabes em xeque

Em julho, as autoridades dos Emirados Árabes Unidos (EAU) fizeram uma oferta que chamou atenção: se residentes do país conseguissem atrair visitantes entre julho e outubro deste ano, teriam direito a um pacote de benefícios no valor de cerca de 800 dólares (R$ 4,2 mil). Mas a maioria dos governos estrangeiros ainda recomenda que seus cidadãos evitem viajar para os EAU devido à guerra protagonizada por Estados Unidos, Israel e Irã.

Os EAU foram alvo de diversos ataques iranianos por serem aliados americanos no contexto da guerra no Oriente Médio, iniciada em fevereiro. Desde então, a ocupação hoteleira despencou de 80% para apenas 10%  no emirado de Dubai, onde o movimentado turismo desempenha um importante papel na economia.

Alguns hotéis anteciparam o fechamento para reformas já planejadas, enquanto resorts de luxo passaram a atrair moradores do próprio país para “staycations” (neologismo em inglês para se referir a estadias de longo prazo no estilo de férias), oferecendo hospedagem de alto padrão com descontos de 50%.

Medidas excepcionais

Dos cerca de 11,8 milhões de habitantes dos EAU, aproximadamente 10,4 milhões não são cidadãos do país, que inclui grandes centros como Dubai e Abu Dhabi. Esse grupo inclui desde milionários que desfrutam das vantagens do regime tributário local até expatriados que trabalham em canteiros de obras ou serviços de limpeza e enviam parte dos seus salários para as famílias nos países de origem.

Muitos dos estrangeiros mais ricos, preocupados com a segurança, deixaram o país quando os mísseis iranianos começaram a cruzar os céus. Para garantir seu retorno após a guerra, os EAU anunciaram que adotarão uma abordagem mais flexível para as regras de residência fiscal. Na prática, será possível permanecer mais tempo fora do país sem perder o status tributário emiradense.

O jornal The New York Times relatou a difícil situação enfrentada por muitos estrangeiros de baixa renda à medida que empregos nos setores de hotelaria e turismo desaparecem. Repórteres em Dubai afirmam ter testemunhado pessoas batendo de porta em porta em busca de trabalho.

Os EAU também anunciaram um pacote de cerca de 680 milhões de dólares (R$3,5 trilhões) para apoiar os setores afetados. As medidas incluem isenções de taxas municipais para hotéis, restaurantes e algumas escolas privadas, além do adiamento de taxas de licenciamento.

Previsões negativas

Ainda assim, analistas preveem queda do investimento estrangeiro direto nos países do Golfo e retração do Produto Interno Bruto (PIB) pela primeira vez desde a pandemia de Covid-19.

“Embora as tensões tenham diminuído, o risco latente de uma retomada do conflito regional continuará sustentando a cautela dos investidores durante o restante do ano”, advertiu a Economist Intelligence Unit em análise do fim de julho.

Empregadores planejam reduzir postos de trabalho e que não esperam realizar novas contratações. Ao mesmo tempo, as pressões inflacionárias, decorrentes de fatores como o bloqueio do Estreito de Ormuz, fizeram aumentar os preços de matérias-primas e de produtos importados em geral. Os preços dos imóveis nos EAU também recuaram.

Linha de swap cambial

De perfil autoritário, o governo dos EAU não divulgam regularmente seus indicadores financeiros mais recentes. Publicamente, seus representantes vêm tentando afastar a impressão de que a economia está em dificuldades. 

Em abril, os EAU solicitaram aos Estados Unidos uma linha de swap cambial, que permite às instituições obter diretamente a moeda da outra parte, contornando os mercados de câmbio.

“Nos últimos anos, (as linhas de swap) tornaram-se uma ferramenta importante para preservar a estabilidade financeira e impedir que tensões de mercado afetem a economia real”, explica o Banco Central Europeu.

Quando a notícia do pedido veio a público, o secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, afirmou que a discussão ocorreu para ajudar a economia dos EAU a lidar com as consequências da guerra.

Mostrando confiança

Pouco depois, porém, o embaixador emiradense nos Estados Unidos, Yousef Al Otaiba, declarou nas redes sociais que “qualquer sugestão de que os EAU precisem de apoio financeiro externo interpreta mal os fatos” e que o país árabe é “uma das economias mais resilientes financeiramente do mundo.”

Em maio, Abdul Aziz al-Ghurair, presidente da Federação de Bancos dos EAU, disse a jornalistas  que não havia receio de fuga de capitais nem de escassez de dólares no país. “Trata-se de construir confiança e sinalizar que somos uma das economias mais confiáveis do mundo”, afirmou outra fonte local ao jornal britânico Financial Times.

A razão mais provável para os EAU terem discutido uma linha de swap cambial com os Estados Unidos foi “funcionar como uma rede de segurança preventiva, e não como sinal de dificuldades agudas”, explicou Adam Holdstock, economista da consultoria britânica Oxford Economics. Segundo ele, a quantidade de dinheiro em circulação nos EAU, também conhecida como base monetária, caiu 8% em março.

“A imagem projetada continua sendo a de que esta situação deve ser temporária”, acrescenta Steffen Hertog, professor da London School of Economics e especialista em economia política do Golfo, ao podcast Money & Macro em meados de julho. “A percepção de que pode haver um novo normal, nem guerra nem paz, uma situação que pode se prolongar por muito tempo, ainda não foi totalmente assimilada.”

Crise ou recuperação?

Holdstock pondera, ainda, que o impacto econômico é setorial, com uma parte da economia em crise e outra em recuperação. “A maior parte dos danos está concentrada nos setores de varejo, transporte, armazenamento e turismo, já que o fluxo internacional de visitantes não deve retornar aos níveis de 2025 antes de 2028.”

Por outro lado, setores mais protegidos, como os serviços financeiros e as atividades ligadas ao governo, estão compensando parcialmente essas perdas, explicou o economista. Por isso, o quadro geral parece melhor do que os dados do setor de hospitalidade, isoladamente, sugerem.

Para analistas, os danos não deverão ser duradouros, partindo da premissa que a guerra será resolvida. Em seu favor no âmbito da recuperação econômica, os EAU têm uma regulamentação favorável aos negócios, uma posição como hub global de aviação e um histórico de atração de capital e talentos, destaca Holdstock.

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