A eleição desse ano pode colocar fim a um dos padrões mais duradouros da política baiana. Há 64 anos, o eleitorado da Bahia não escolhe um governador de uma determinada força política e, simultaneamente, senadores ligados a um grupo adversário. O último registro ocorreu em 1962, quando Lomanto Júnior venceu a disputa pelo governo, enquanto Antônio Balbino e Josaphat Marinho conquistaram as duas cadeiras disponíveis no Senado pela composição adversária.
O fenômeno, conforme reportagem de Leo Almeida, do jornal A Tarde, volta ao centro das atenções porque as chapas majoritárias de 2026 apresentam uma divisão clara entre os principais grupos políticos do estado. De um lado, Jerônimo Rodrigues (PT) disputa a reeleição com Rui Costa e Jaques Wagner como candidatos ao Senado. Do outro, ACM Neto (União Brasil) lidera uma composição que tem Angelo Coronel (Republicanos) e João Roma (PL) na corrida pelas duas vagas da Câmara Alta. A chapa oposicionista foi oficializada em julho.
O desenho atual cria a possibilidade de o eleitor baiano romper com a tradição de escolher, para governador e Senado, candidatos integrantes da mesma aliança política.
Lomanto foi a última exceção
A eleição de 1962 é considerada o único caso em que o resultado para o governo e para o Senado colocou forças políticas adversárias no comando das principais cadeiras da representação estadual.
Lomanto Júnior venceu a eleição para governador com 50,92% dos votos, enquanto Waldir Pires terminou em segundo lugar, com 46,60%. Na disputa pelo Senado, entretanto, os vencedores foram Antônio Balbino, com 32,52%, e Josaphat Marinho, com 24,83%. Dantas Júnior e Lima Teixeira, vinculados à composição de Lomanto, ficaram fora das duas vagas.
A configuração daquele pleito tinha particularidades próprias. Josaphat Marinho e Waldir Pires fizeram campanha juntos, embora não fossem integrantes do mesmo partido. O episódio acabou se tornando a principal referência histórica para a possibilidade de uma eleição descasada na Bahia.
Padrão voltou após a redemocratização
Depois do período em que as eleições diretas para governador foram interrompidas, a Bahia retomou a coincidência entre as forças vencedoras do Palácio de Ondina e as que conquistavam as vagas para o Senado.
Em 1982, João Durval foi eleito governador, enquanto Luiz Viana Filho conquistou a vaga ao Senado. Em 1986, Waldir Pires venceu para o governo e Ruy Bacelar e Jutahy Magalhães foram eleitos senadores pela mesma corrente política.
O padrão continuou nos ciclos seguintes. Em 1990, Antônio Carlos Magalhães venceu a eleição para governador e Josaphat Marinho foi eleito senador. Em 1994, Paulo Souto chegou ao governo e Antônio Carlos Magalhães e Waldeck Ornelas conquistaram as duas vagas ao Senado. Em 1998, César Borges venceu a disputa estadual e Paulo Souto foi eleito senador.
Em 2002, Souto voltou ao governo e novamente integrou uma composição que levou seus aliados ao Senado.
PT também manteve a lógica das chapas
A mudança do grupo político dominante na Bahia, em 2006, não rompeu imediatamente com esse padrão. Jaques Wagner venceu a eleição para governador e João Durval, integrante da base que o apoiava, foi eleito senador.
Em 2010, Wagner foi reeleito e Walter Pinheiro e Lídice da Mata conquistaram as duas cadeiras do Senado dentro da base governista. Em 2014, Rui Costa venceu a eleição para governador e Otto Alencar foi eleito senador em uma composição apoiada pelo grupo governista.
A eleição de 2018 também manteve a lógica. Rui Costa foi reeleito no primeiro turno, enquanto Jaques Wagner e Angelo Coronel conquistaram as duas vagas ao Senado na mesma chapa majoritária.
Em 2022, Jerônimo Rodrigues venceu ACM Neto no segundo turno e Otto Alencar foi eleito para o Senado, novamente mantendo a convergência entre o grupo vencedor do governo e a principal candidatura apoiada pela base governista.
2026 coloca o tabu novamente em risco
A configuração deste ano é diferente. Jerônimo Rodrigues decidiu montar uma chapa considerada puro-sangue para o Senado, com dois nomes do mesmo partido, Rui Costa e Jaques Wagner. A composição foi apresentada como parte da estratégia do grupo governista para a eleição estadual.
No campo adversário, ACM Neto terá ao seu lado Angelo Coronel e João Roma na disputa pelas duas vagas ao Senado. A composição foi oficializada na convenção realizada em Salvador em 22 de julho.
O resultado das urnas poderá, portanto, produzir pela primeira vez desde 1962 uma combinação diferente daquela observada na maior parte da história eleitoral baiana.
Caso Jerônimo seja reeleito e um ou dois candidatos da oposição conquistem as vagas ao Senado, haverá uma nova eleição descasada. O mesmo poderá ocorrer no cenário inverso, caso ACM Neto vença o governo e candidatos da base governista sejam eleitos para a Câmara Alta.
Duas vagas aumentam a imprevisibilidade
A disputa deste ano também ganha importância porque os baianos escolherão dois senadores. Isso amplia as possibilidades de composição do resultado e permite que diferentes forças políticas sejam representadas simultaneamente.
Em 2018, por exemplo, Jaques Wagner e Angelo Coronel foram eleitos pela chapa majoritária de Rui Costa, enquanto o candidato da oposição que chegou mais próximo, Irmão Lázaro, terminou em terceiro.
Agora, com dois blocos políticos apresentando candidaturas competitivas para as duas vagas, o comportamento do eleitor poderá definir se a tradição iniciada depois de 1962 será preservada ou finalmente interrompida.
O histórico de 64 anos coloca a eleição de 2026 como um dos momentos mais relevantes para observar se a Bahia continuará elegendo governador e senadores dentro da mesma composição política ou se voltará a produzir um resultado semelhante ao de 1962.
Fonte: Clique aqui
Créditos do autor:
Créditos da imagem: Reprodução/Divulgação