Apesar dos rumores, nunca foi devidamente explicada a postura omissa do presidente do Congresso em relação ao escândalo do Master. Davi Alcolumbre (União Brasil-AP) ignorou os pedidos de instalação de uma CPI para apurar o caso, recusou-se a responder a um ofício sobre eventuais entradas de Daniel Vorcaro nas dependências do Senado, se negou a fornecer à Polícia Federal a lista de visitantes do gabinete do senador Jaques Wagner (PT), suspeito de receber propina, e sempre desconversa quando indagado sobre o nível de suas relações com o ex-banqueiro. Mensagens encontradas pela PF no celular de Vorcaro iluminam essa zona de sombra.
Conforme reportagem de Robson Bonin e Laryssa Borges, da revista Veja, essas mensagens revelam que Alcolumbre é um amigo fraterno, um irmão, um parceiro fiel com quem o dono do Master podia contar a qualquer tempo, a qualquer hora, para qualquer coisa. Entre os dois, a intimidade ultrapassava de longe o limite da camaradagem. O senador recorria ao banqueiro até para resolver questões prosaicas, como tentar identificar a fonte de um jornalista. O banqueiro recorria ao senador quando precisava abrir certas portas. Festas e encontros privados fortaleceram essa conexão.
As mensagens a que VEJA teve acesso revelam um presidente do Congresso servil, submisso e capturado pelos prazeres que o dono do Master proporcionava. Mostram também que a intimidade entre eles vinha de longa data. Alcolumbre foi eleito presidente do Senado pela segunda vez no dia 1º de fevereiro de 2025. No mesmo dia, Vorcaro enviou um texto ao senador dando-lhe os parabéns e desejando sucesso no cargo. “Fala meu amor”, respondeu o parlamentar. “Muito obrigado por tudo, em especial pelo seu carinho e amizade fraterna! Sou seu irmão. Pra vida toda”, continuou. O banqueiro responde à gentileza com cinco emojis de coração e juras: “E eu seu. A qualquer tempo pra qualquer coisa. Nunca vou esquecer”. Em maio passado, Alcolumbre recorreu a artimanhas regimentais para evitar a criação da CPI que se dispunha a investigar os tentáculos políticos do caso Master. “Esse assunto não pode ser o prioritário neste momento”, justificou. As investigações revelaram posteriormente que uma das tramoias do banqueiro foi feita em conluio com a Amprev, o fundo de previdência dos servidores do Amapá, que tinha como conselheiro o irmão do senador e como presidente o ex-tesoureiro de sua campanha.
No acervo há dezenas de mensagens em que são combinadas festas com a participação de renomadas autoridades. Uma delas foi organizada para atender o presidente do Congresso. Vorcaro acerta os detalhes com Fábio Faria, ex-ministro das Comunicações de Jair Bolsonaro. “Aquela de 3 metros estará la, Fabio”, escreveu o banqueiro, num grupo de WhatsApp batizado de Macallan, a famosa marca de uísque escocês. “A dupla né. Foda que o Davi aprendeu a falar pelo Google tradutor e pode assustar a menina”, ironizou Faria. “Kkkkkk. Bonde do tigrão”, completou Vorcaro. O dono do Master costumava importar mulheres de outros países, especialmente da Europa, para animar as festas. Em um chat com Alcolumbre, o banqueiro repassa o endereço do evento e dá instruções ao senador: “Me avisem a hora que chegam. Vao cedo. Traje todo preto pra festa”. O comportamento do senador era ridicularizado pelos próprios convivas. “Davi Alcolumbre de mochila bile (sic) com canudo com vodka”, comentou um deles. “Davi falou q esta com dança nova”, divertiu-se Fábio Faria.
Em abril de 2024, à margem de um encontro realizado em Londres para discutir o cenário jurídico no Brasil, o banqueiro patrocinou uma degustação de Macallan para um grupo especial de convidados, entre eles os ministros do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes e Dias Toffoli, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, e o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues. Vorcaro gastou 3 milhões de reais com o regabofe. Às vésperas do evento, Fábio Faria encaminha ao banqueiro uma foto, que pelo contexto se infere ser de uma mulher. Era 28 de março de 2024, pouco menos de um mês para o convescote que, tempos depois, viraria motivo de constrangimento para as autoridades que lá estavam. “Essa vc vai ter que assumir. Pra mim já venceu. Em Londres. Eu passo e vc me da qdo cansar”, escreveu o ex-ministro. Fábio é figura constante nos chats e atua como mediador de encontros estratégicos para o banqueiro. Foi por intermediação dele, por exemplo, que o ex-dono do Master se reuniu por diversas vezes com o ministro do STF Alexandre de Moraes.
A conversa sobre a contratação de mulheres para um evento paralelo ao fórum jurídico continua, e Vorcaro relata ao interlocutor temer o vazamento da confraternização privada. Na sequência, admite que parte dos convidados só estava lá pela garantia de que mulheres contratadas para entretê-los estariam à disposição. “To achando que não vai dar pra fazer off la viu. To com receio. Foda que tem nego que ta indo so pra isso ne kkkk”, escreveu. Faria propõe então uma solução para tentar manter a confidencialidade — e coloca mais uma vez Davi Alcolumbre na jogada: “Daquele jeito da. Fazemos pros caras e ficamos de boa. E depois vamos pra um menor. Pegar uma suíte em outro hotel. Deixa umas 4 lá”. Com a concordância de Vorcaro, completa: “E fazemos um pacto com Davi q só pode falar pro careca”. Nessa época, Davi Alcolumbre havia deixado o primeiro mandato na presidência do Senado e ocupava o comando da poderosa Comissão de Constituição e Justiça da Casa. Ele foi a Londres a pretexto de participar de uma das mesas de debates. Alexandre de Moraes, que em diferentes conversas entre Faria e Vorcaro era tratado como “careca”, discursou no evento, originalmente planejado para homenagear o ex-presidente da República Michel Temer. Outras autoridades que aparecem em meio aos diálogos são o presidente da Câmara, Hugo Motta, e o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo. Em julho do ano passado, quando o BC emperrou a venda do Master para o BRB, Vorcaro disse a Motta que havia tentado contato, em vão, com Alcolumbre, a fim de se informar sobre uma reunião importante do BC a respeito do processo. Motta responde ao banqueiro: “Galípolo ficou de ir lá para casa de Davi quando encerrasse a reunião. Eu tava decolando quando Davi me ligou para dizer isso”.
Em junho passado, pouco depois de Davi Alcolumbre inviabilizar a criação da CPI no Congresso, uma reportagem de VEJA revelou detalhes de uma proposta de delação premiada que a defesa de Daniel Vorcaro encaminhou à Polícia Federal. Nela, entre outras revelações, o banqueiro se oferecia para falar sobre pagamentos feitos ao senador numa conta secreta aberta no exterior. Em troca de benefícios, o dono do Master prometia revelar o caminho de 30 milhões de dólares repassados a Alcolumbre por serviços prestados pelo político. O acordo de colaboração, no entanto, não foi aceito. Na época, o parlamentar disse que as informações eram falsas e, numa reunião com os colegas, negou até mesmo conhecer o banqueiro. Na quarta-feira 23, quatro meses depois da ofensiva de Alcolumbre contra a criação de uma CPI, o ministro do STF Cristiano Zanin negou um recurso para a instalação da comissão de inquérito sob o argumento de que não se comprovou omissão do presidente do Senado em apurar o escândalo financeiro e suas ramificações políticas. Em paralelo, o ministro Luiz Fux abriu prazo para que o presidente do Congresso se manifeste sobre um pedido do partido Novo para que se tornem públicos os registros de entrada e saída no Senado de diversas pessoas, incluindo Daniel Vorcaro. Em um dos últimos registros em poder dos investigadores, o dono do Banco Master pergunta a Alcolumbre se ele tem notícias do “nosso amigo”. “Estou em Cima!!! Pressão!!!”, respondeu o senador. A sombra começa a se dissipar.
Atualização (24/09/2026, 20h59) – O ex-ministro das Comunicações Fábio Faria enviou uma nota à reportagem, leia a íntegra:
“O empresário Fabio Faria esclarece que a conversa citada pela Veja tratava de reservas de 4 suítes de hotel de uma viagem para Londres com outros quatro empresários, que avaliavam uma possível sociedade minoritária no Queens Park Rangers, clube da segunda divisão inglesa. A negociação não prosperou.
O assunto não tem relação alguma com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, que em nenhum momento foi cogitado para essa viagem. A única vez que o empresário encontrou Davi Alcolumbre fora do Brasil foi em outubro de 2023, durante um evento empresarial em Paris.”
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