Rede HU Brasil une prevenção, assistência e formação no cuidado a usuários de álcool e outras drogas — Agência Gov

Mais da metade dos brasileiros de 13 a 17 anos já experimentaram bebida alcóolica e quase um terço já fumaram cigarro eletrônico

Nem sempre o risco aparece de forma abrupta. Ele pode começar quando o álcool ou outra substância passa, aos poucos, a ocupar espaços antes preenchidos pelo convívio familiar, pelos estudos, pelo trabalho ou pelo lazer. Quando o consumo ganha centralidade na rotina, procurar ajuda pode evitar o agravamento dos prejuízos à saúde.

No Dia Internacional contra o Abuso e o Tráfico Ilícito de Drogas, celebrado nesta sexta (26/6), especialistas da Rede HU Brasil destacam que o uso prejudicial de substâncias não pode ser explicado por uma única causa. O fenômeno envolve aspectos emocionais, familiares, sociais e econômicos, além das características de cada pessoa e do contexto em que o consumo ocorre.

Em 2026, o tema da mobilização internacional é “problemas persistentes, novos desafios e respostas inovadoras”. Entre as questões atuais estão as drogas sintéticas, as novas substâncias psicoativas, as mudanças nos contextos de consumo e a presença crescente do cigarro eletrônico entre adolescentes.

Dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) 2024 mostram que 53,6% dos estudantes brasileiros de 13 a 17 anos já experimentaram bebida alcoólica. Embora o consumo recente de álcool e drogas ilícitas tenha diminuído em relação a 2019, 29,6% disseram já ter experimentado cigarro eletrônico — percentual que era de 16,8% cinco anos antes.

Os números dimensionam a exposição, mas não indicam, sozinhos, quando o consumo começa a comprometer a vida de uma pessoa. Para o médico psiquiatra do Serviço de Estudos e Atenção a Usuários de Álcool e outras Drogas do Hospital Universitário de Brasília (Sead/HUB-UnB), Guilherme Veiga, o sinal de alerta está no aparecimento de prejuízos nas relações familiares, nos estudos, no trabalho, no convívio social, no lazer ou na saúde.

Outro indício é a substância passar a estar mais no cotidiano, mesmo antes de as consequências se tornarem evidentes. “Ela, cada vez mais, precisa estar presente”, explica. O médico lembra que não existe consumo completamente isento de risco, seja de substância lícita ou ilícita, prescrita ou não.

Novas substâncias, contextos mais complexos

Embora o uso de substâncias acompanhe a história humana, novas composições e formas de consumo impõem desafios adicionais aos serviços de saúde. Algumas drogas sintéticas e novas substâncias psicoativas apresentam maior potência sobre o sistema nervoso central, ampliando os riscos de adoecimento clínico e psiquiátrico.

Guilherme enfatiza que o diagnóstico precisa considerar não apenas a substância e a quantidade utilizada, mas o ritual, o contexto e as condições sociais que atravessam a vida da pessoa. Também é comum a ocorrência simultânea de transtornos relacionados ao uso de substâncias e outros transtornos mentais.

A psiquiatra Carolina Costa, do Serviço de Psiquiatria e Psicologia Médica do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho da Universidade Federal do Rio de Janeiro (HUCFF-UFRJ), explica que pessoas em sofrimento psíquico podem buscar em substâncias ou comportamentos acessíveis uma tentativa de alívio. Isso pode envolver álcool, medicamentos controlados sem prescrição, jogos eletrônicos e outras práticas.

Isolamento, fragilidade dos vínculos e relações mediadas por telas não levam necessariamente ao uso de drogas, mas podem compor um cenário de vulnerabilidade quando associados à dificuldade de reconhecer emoções, enfrentar frustrações ou pedir ajuda.

Para Carolina, estratégias preventivas eficazes podem começar antes mesmo de uma conversa específica sobre drogas. O desenvolvimento de habilidades socioemocionais ajuda crianças e adolescentes a expressar sentimentos, negociar conflitos, resistir à pressão do grupo e tomar decisões com menor risco. A orientação de pais e responsáveis, o diálogo e a construção de ambientes familiares protetores também integram esse processo.

Na avaliação de Guilherme, a tecnologia não deve ser tratada isoladamente como problema. A atenção deve estar na qualidade da convivência e na presença dos adultos na vida dos adolescentes, especialmente quando celulares e outros dispositivos passam a limitar a escuta e a troca afetiva.

Cuidar da pessoa, não apenas do consumo

Desigualdade social, exclusão, desemprego, violência, dificuldades familiares e barreiras de acesso a direitos e serviços de saúde estão entre os fatores identificados no cotidiano dos usuários do Sead. Para a assistente social, fundadora e coordenadora do serviço, Claudia Regina Merçon de Vargas, “É fundamental acolher a dor de quem chega”. A escuta também pode alcançar familiares e outras pessoas que compartilham a situação de sofrimento.

Há 35 anos, o Sead desenvolve atividades assistenciais, de ensino e de pesquisa no HUB-UnB, hospital vinculado à Rede HU Brasil. A equipe interdisciplinar reúne profissionais de Enfermagem em Saúde Mental, Psicologia, Psiquiatria e Serviço Social.

O fluxo começa com o acolhimento e pode incluir avaliação e acompanhamento psiquiátrico, psicoterapia, consulta de enfermagem, monitoramento, intervenção familiar e ateliê de convivência. Os casos são discutidos pela equipe, que elabora e atualiza um Projeto Terapêutico Singular individualizado.

O serviço também articula ações com a Rede de Atenção Psicossocial e participa da formação de internos de Medicina, estagiários, residentes e profissionais de diferentes áreas. O trabalho com as famílias oferece orientação e espaços de reflexão sobre conflitos, estigma, vulnerabilidades e fragilização dos vínculos.

No HUCFF-UFRJ, embora não exista um serviço exclusivo para o tratamento do uso de álcool e outras drogas, pessoas com sofrimento psíquico relacionado ao consumo podem ser identificadas e acompanhadas pela equipe de Psiquiatria e Psicologia Médica, inclusive durante internações e tratamentos em outras especialidades.

Carolina destaca que cuidar da saúde mental e dos determinantes sociais que atravessam a vida dos pacientes também faz parte da prevenção. A formação dos profissionais e a participação em políticas públicas voltadas ao controle do tabaco e do álcool ampliam esse trabalho. “Precisamos sair do consultório para conseguir mudar sistemas”, resume.

Ampliar o acesso aos serviços, reconhecer precocemente o sofrimento e reduzir o estigma são caminhos para aproximar as pessoas do cuidado. Diante de substâncias e contextos que se transformam, a escuta permanece como ponto de partida para enxergar cada pessoa para além do consumo.

Sobre a HU Brasil

Criada por meio da Lei nº 12.550/2011 e vinculada ao Ministério da Educação (MEC), a HU Brasil nasceu tendo como nome oficial Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares – Ebserh. É responsável pela administração de 47 hospitais universitários federais em 25 unidades da federação, apoiando e impulsionando suas atividades por meio de uma gestão de excelência. Em 2026, em um reposicionamento junto à sociedade, ao mercado e instituições parceiras, passou a ter um novo nome, que carrega sua essência: HU Brasil.

Por Felipe Monteiro
Gerência Executiva de Comunicação Social da Rede HU Brasil

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