País europeu tem alta recorde de crimes com motivação política

Os crimes praticados por motivação política atingiram um novo recorde no ano passado na Alemanha, mostram os dados do Departamento Federal de Investigações alemão (BKA) divulgados nesta quarta-feira (10). A polícia contabilizou, em todo o país, 85.837 casos deste tipo em 2025, um aumento de quase 2% em relação a 2024.

Esse foi o maior número registrado desde o início da série histórica, em 2001. Em média, são cometidos cerca de 235 crimes políticos por dia ou dez por hora. Em metade dos casos, os suspeitos são extremistas de direita.

Uma grande parcela destes delitos esteve relacionada a crimes de ódio, entre eles, agressões antissemitas, islamofóbicas ou anticiganistas. Há também ocorrências de dano ao patrimônio, propaganda proibida, insultos e incitação ao ódio.

Houve também um aumento dos crimes de motivação política violentos. Novamente, a maioria dos casos foi praticado por extremistas de direita. Dos 4.156 destes delitos violentos registrados em 2025, 1.598 tiveram motivação de direita, um aumento de 7,4% em relação ao ano anterior.

“Isso mostra claramente que a maior ameaça, naturalmente, vem do extremismo de direita”, destacou o ministro alemão do Interior, Alexander Dobrindt, na divulgação dos dados.

Já os delitos violentos com motivação de esquerda cresceram quase 43%, chegando a 1.087. Os crimes violentos de motivação religiosa também registraram um aumento de 13%, com 98 casos.

O número de crimes violentos supostamente alimentados por ideologias estrangeiras caiu cerca de 28%, para 704 ocorrências. Também houve queda de quase 16% nos delitos políticos (669) que não puderam ser atribuídos a nenhum dos campos clássicos de classificação

Aumento do antissemitismo

A polícia também analisou a evolução das ocorrências classificadas como crimes de ódio. Trata-se de delitos de motivação política em que há indícios de que preconceitos do autor – por exemplo, contra pessoas de determinadas nacionalidades ou religiões – tenham desempenhado um papel central. Em 2025, quase 19.500 casos foram classificados como “crimes de ódio movidos por xenofobia”, número semelhante ao do ano anterior.

Nos crimes de ódio classificados como antissemitas, foi registrado um aumento de 5%, chegando a 6.548 ocorrências. Por isso, o ministro do Interior considera que a Alemanha e a política têm mais do que nunca o dever de reagir: “Quero deixar claro que não podemos afrouxar na proteção da vida judaica.”

Um crescimento expressivo foi observado ainda nos crimes com motivação misógina: 819 casos foram comunicados pelas autoridades policiais ao BKA, quase 47% a mais do que no ano anterior.

Polarização social

As ocorrências de delitos praticados por motivação política na Alemanha praticamente dobraram em dez anos. O presidente do BKA, Holger Münch, explica o aumento dos números em quase todas as áreas pelo crescimento da polarização social. “Isso pode levar a uma radicalização que se manifesta por meio de atos violentos contra pessoas com outras opiniões ou contra o sistema político.”

Münch também ressalta a influência da propaganda extremista, sobretudo nas redes sociais e em parte proveniente do exterior, como vetor para o atual crescimento.

“Conflitos internacionais também mobilizam emocionalmente a sociedade na Alemanha. Eles intensificam processos de radicalização e atos de violência em nome de objetivos ideológicos”, destacou Münch. Quase metade dos crimes de ódio antissemitas registrados em 2025 esteve relacionada ao conflito na Faixa de Gaza.

O aumento dos crimes de motivação misógina estaria ligado, em parte, a uma mudança no modelo de masculinidade, afirma Münch. Esse fenômeno seria impulsionado por conteúdos disseminados em redes sociais. O BKA aponta ainda que a misoginia funcionaria como um “elemento de conexão e porta de entrada para o extremismo político”.

Ataque à democracia

“Todos esses crimes são um ataque à compreensão que temos de nós mesmos enquanto democracia”, destacou Münch. Um modelo de sociedade no qual todas as pessoas podem viver livres, seguras e com dignidade, acrescenta ele.

E, nessa escala, as temperaturas estão subindo em quase todos os pontos. Isso também se reflete no aumento de crimes misóginos e contra pessoas LGBTQIA+. “O clima social está se acirrando”, resume Münch. “O fundamento da nossa democracia está sendo atacado.”

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