A Polícia Federal passou a investigar o envio de uma emenda parlamentar do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) para uma organização não-governamental suspeita de integrar um esquema de desvios de recursos públicos ligado aos irmãos Brazão, condenados pelo assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes. As informações foram reveladas em reportagem de Patrik Camporez, de Brasília, publicada pelo jornal O Globo.
Segundo a investigação, o repasse de R$ 199 mil foi destinado ao Instituto de Formação Profissional José Carlos Procópio (Ifop), entidade localizada no bairro da Taquara, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, região considerada área de influência política do grupo dos Brazão. A transferência ocorreu em novembro de 2023, cerca de um mês após integrantes do gabinete do senador terem sido procurados por um ex-assessor de Domingos Brazão no Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro (TCE-RJ).
De acordo com a PF, o policial militar da reserva Robson Calixto Fonseca, conhecido como “Peixe”, teria atuado como intermediador do pedido da emenda parlamentar. Ele também foi condenado por organização criminosa no processo relacionado às mortes de Marielle Franco e Anderson Gomes. Os investigadores afirmam que Peixe operava nos bastidores para favorecer interesses do grupo político liderado por Domingos Brazão e Chiquinho Brazão.
A apuração da Polícia Federal teve início após a quebra do sigilo telefônico de Peixe durante as investigações do caso Marielle. Nas mensagens analisadas pelos investigadores, há indícios de que ele fazia contatos com deputados e senadores para captar recursos públicos destinados a entidades ligadas ao grupo político investigado.
Segundo o relatório da PF, organizações associadas ao esquema teriam recebido aproximadamente R$ 268 milhões em emendas parlamentares entre 2020 e 2024. Os investigadores suspeitam que parte desses recursos era posteriormente utilizada para custear despesas ligadas aos interesses políticos do grupo dos Brazão.
Entre os elementos reunidos pela investigação estão mensagens que apontariam pedidos de compra de bicicletas, contratação de helicóptero e transferências bancárias relacionadas a empresas ligadas a familiares de Peixe. Em um dos episódios citados pela PF, bicicletas teriam sido distribuídas durante evento político realizado em Jacarepaguá para promover a candidatura de um sobrinho de Chiquinho Brazão à Câmara Municipal do Rio.
A Polícia Federal também identificou conversas entre Peixe e uma assessora do gabinete de Flávio Bolsonaro em outubro de 2023. Pouco mais de um mês depois, o Ifop recebeu o valor da emenda destinada pelo senador.
Em nota, Flávio Bolsonaro afirmou que não cabe ao parlamentar fiscalizar diretamente a aplicação dos recursos pelas entidades beneficiadas. Segundo a assessoria do senador, o objetivo da emenda era apoiar projetos esportivos voltados a crianças em situação de vulnerabilidade social.
Já o Ifop declarou que não possui qualquer relação formal ou informal com Peixe ou com os irmãos Brazão. A entidade informou ainda que os recursos foram aplicados em projetos esportivos e que a prestação de contas foi encaminhada ao Ministério do Esporte, incluindo devolução de valores excedentes não utilizados.
As investigações também apontam que parte dos recursos recebidos pela ONG foi destinada a empresas ligadas a outras entidades investigadas pela PF. Um dos pagamentos teria sido realizado a uma consultoria registrada em endereço onde atualmente funciona um salão de beleza em Brasília.
O relatório ainda aponta que, em novembro de 2024, Peixe voltou a procurar integrantes do gabinete de Flávio Bolsonaro solicitando novos recursos para o instituto. Não há, porém, registro de novo repasse.
Além das suspeitas envolvendo emendas parlamentares, a PF destacou trocas de mensagens pessoais entre o operador investigado e assessores ligados ao gabinete do senador, incluindo pedidos de ingressos para o desfile das campeãs do carnaval carioca.
Antes de atuar no TCE-RJ, Peixe trabalhou no gabinete de Domingos Brazão na Alerj. Segundo a Procuradoria-Geral da República, ele teria exercido papel de intermediador entre executores e mandantes do assassinato de Marielle Franco.
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