‘Nossas regiões disseram sim à integração para uma zona de livre comércio’, diz Lula sobre acordo Mercosul-UE — Agência Gov

Em declaração à imprensa após visita oficial a Hanôver, presidente destacou o início de uma nova etapa na parceria entre Mercosul e União Europeia e reforçou a cooperação com a Alemanha em áreas estratégicas como energia limpa, inovação e clima

O presidente Lula afirmou, nesta segunda-feira (20/4), em Hanôver, na Alemanha, que a entrada em vigor do Acordo Mercosul-União Europeia, marcada para 1º de maio, inaugura uma nova etapa na integração econômica entre os dois blocos e fortalece a cooperação estratégica entre Brasil e Alemanha em áreas como transição energética, inovação tecnológica e ação climática. Em declaração à imprensa após reunião com o chanceler federal Friedrich Merz, Lula defendeu o acordo como símbolo da aposta conjunta no multilateralismo, na prosperidade compartilhada e em regras comerciais equilibradas.

A entrada em vigor do Acordo Mercosul-União Europeia, no dia 1º de maio, abre espaço para uma parceria abrangente, que vai muito além do livre comércio. Estamos falando de um modelo de cooperação que valoriza e protege os trabalhadores, os direitos humanos e o meio ambiente”, disse o presidente

Durante a visita oficial à Alemanha, Lula participou da Feira Industrial de Hanôver, do Encontro Econômico Brasil-Alemanha e da Reunião de Consultas Intergovernamentais de Alto Nível, agendas que consolidaram avanços em áreas estratégicas para os dois países. Os entendimentos firmados reforçam a parceria bilateral em setores como defesa, inteligência artificial, economia circular, infraestrutura sustentável e energias renováveis, além de ampliar a coordenação entre Brasil e Alemanha em defesa do multilateralismo e da transição ecológica.

Acordo histórico

Lula destacou que a entrada em vigor do Acordo Mercosul-União Europeia é um passo decisivo para a diversificação das relações comerciais e o fortalecimento da resiliência econômica.

Por isso o Acordo Mercosul-União Europeia é tão importante e foi tão defendido por Brasil e Alemanha. Depois de 25 anos de negociações, nossas regiões disseram sim à integração para criar uma zona de livre comércio que reúne 720 milhões de pessoas e que soma um PIB de 22 trilhões de dólares”, explicou Lula

Defensores da integração

O chanceler alemão, Friedrich Merz, também comemorou a entrada em vigor do Acordo Mercosul-União Europeia, classificando o Brasil e a Alemanha como defensores dessa integração. Ele afirmou ainda que a implementação do acordo deve impulsionar a colaboração em diversas áreas, como tecnologia e agricultura. “Fizemos parte daquele grupo que realmente insistiu que o acordo entrasse em vigor, então foi um êxito em comum. Entrando em vigor, vai fomentar cada vez mais a nossa cooperação na área de tecnologia, inteligência artificial, economia circular, agricultura, energia”, disse.

O chefe de governo alemão mencionou medidas para fortalecer os vínculos econômicos entre os países. “Para isso, definimos um catálogo de medidas e decidimos retomar as negociações em prol de um acordo para evitar tributação dupla e fortalecemos as nossas relações econômicas. Nós fortalecemos também a resiliência e diversificação econômica e essa é uma prioridade máxima nesse momento tão imprevisível no mundo”, afirmou o chanceler.

Parceria estratégica

Friedrich Merz ressaltou que a parceria entre Brasil e Alemanha ganha ainda mais importância em um contexto internacional marcado por mudanças. “Fico muito agradecido ao Brasil porque é um dos poucos países com quem temos esse status. Com o Brasil, temos uma parceria estratégica robusta e dinâmica e conseguimos fomentar essa parceria nesses últimos dias. Essa proximidade é mais importante do que nunca, nesses tempos de tanta mudança na ordem mundial”, afirmou.

Regras justas – Em seu discurso, o presidente Lula defendeu regras justas diante de medidas adotadas pela União Europeia que, segundo ele, podem comprometer o equilíbrio do acordo. “É legítimo impulsionar políticas de descarbonização, preservação ambiental e desenvolvimento industrial. Mas não é correto adotar métricas que não são fidedignas à realidade, nem compatíveis com regras multilaterais. Não há como vencer o unilateralismo com mais unilateralismo”, disse Lula.

Acordos

Durante reunião com o chanceler federal alemão, foram firmados acordos que ampliam a cooperação bilateral em setores como defesa, inteligência artificial, tecnologias quânticas, infraestrutura, economia circular, eficiência energética, bioeconomia e pesquisa oceânica e climática.

Em seu discurso, o presidente Lula ressaltou que a Alemanha é a terceira economia mundial e quarto parceiro comercial do Brasil, com intercâmbio de 21 bilhões de dólares, além de um estoque de investimentos diretos superior a 40 bilhões de dólares.

Lula também apontou que iniciativas brasileiras como o Novo PAC, a Nova Indústria Brasil (NIB) e o Plano de Transformação Ecológica “oferecem novas oportunidades para investidores alemães interessados em levar inovações tecnológicas e soluções sustentáveis para o Brasil”.

Na área de defesa, citou a construção de fragatas da classe Tamandaré. “Um consórcio binacional está construindo quatro fragatas da classe ‘Tamandaré’, para entrega até 2028. Aqui em Hanôver, avançamos nas tratativas para a aquisição de mais quatro unidades”, afirmou.

Mudança do clima

Na agenda climática, Lula enfatizou o compromisso brasileiro com a preservação ambiental e o combate ao desmatamento, com meta de zerar a prática até 2030. “Alemanha e Brasil têm consciência de que o amanhã depende do cuidado com o planeta. Se o Rio de Janeiro foi o berço da Convenção das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, Bonn [cidade Alemã] é a casa, ao abrigar seu Secretariado”, enfatizou.

O presidente brasileiro apresentou resultados já alcançados na área ambiental. Ele também ressaltou a cooperação com a Alemanha em diversas iniciativas em prol do meio ambiente. “Até agora, já reduzimos em 50% os índices de desmatamento na Amazônia e em 32% no Cerrado. Restabelecemos e ampliamos nossa cooperação ambiental com a Alemanha no Fundo Amazônia, aliada desde sua constituição em 2008”, registrou.

O presidente Lula afirmou que a Alemanha foi um dos primeiros países a apoiar a proposta brasileira de elaborar um Mapa do Caminho pelo fim dos Combustíveis Fósseis. Em Belém, na COP30, o chanceler federal Merz foi um dos primeiros a anunciar investimento no Fundo Florestas Tropicais para Sempre, no valor de um bilhão de euros. “Hoje, confirmou a contribuição de quinhentos milhões de euros ao Fundo Clima”, anunciou Lula.

Energia

Ao tratar de energia, o presidente Lula defendeu a diversificação das matrizes e criticou resistências ao uso de biocombustíveis. “Não existe segurança energética sem diversificação. A recente alta nos preços do petróleo mostra que está mais do que na hora de a Europa superar sua resistência ideológica aos biocombustíveis”, disse, apontando-os como opção barata, confiável e eficiente para descarbonizar o setor de transportes.

O presidente destacou a experiência brasileira na produção de etanol e biodiesel. “Com conhecimento acumulado ao longo de cinco décadas, o Brasil é capaz de produzir etanol e biodiesel sem comprometer a produção de alimentos e as áreas de floresta”, enfatizou.

Minerais críticos – Além disso, Lula enfatizou o potencial do país no fornecimento de minerais críticos, com a intenção de atrair cadeias produtivas e agregar valor à produção nacional. “Nossas reservas também nos tornam atores incontornáveis no debate sobre minerais críticos. Queremos atrair cadeias de processamento para o território brasileiro, sem fazer opções excludentes. A colaboração em setores intensivos em tecnologia é uma prioridade para um país que não quer se limitar a ser um mero exportador de commodities”, assinalou o presidente.

Saúde

Na área da saúde, Lula indicou o interesse do Brasil em ampliar a cooperação com a Alemanha para implantação de hospitais inteligentes no Brasil. “Queremos uma rede de serviços hospitalares inteligentes para minimizar o tempo de espera por consultas, exames e procedimentos especializados no Sistema Único de Saúde.”

Soberania digital – O presidente também tratou da agenda digital, ressaltando a convergência entre Brasil e Alemanha na promoção da soberania tecnológica, no desenvolvimento de infraestrutura digital e na regulação de plataformas e da inteligência artificial. “Estamos comprometidos com o desenvolvimento de infraestruturas digitais, como data centers, computadores de alto desempenho e semicondutores. Não queremos mais permanecer dependentes de empresas estrangeiras que enriquecem às custas dos dados de nossos cidadãos, sem garantias de privacidade e segurança”, declarou.

Ele defendeu a proteção de dados, a segurança digital e o equilíbrio entre liberdade de expressão e direitos humanos. “Há convergências entre as diretrizes do Plano Brasileiro de Inteligência Artificial e a política alemã para o tema, como a ênfase no desenvolvimento de capacidades locais. Alemanha e Brasil são aliados na regulação das plataformas virtuais e do uso da inteligência artificial”, disse Lula.

Multilateralismo

Por fim, Lula alertou para o enfraquecimento do multilateralismo e para os riscos à paz global. “Somente um multilateralismo revigorado pode restabelecer a diplomacia e a cooperação como ferramentas para a paz e o desenvolvimento sustentável”, declarou o presidente, que também reforçou a defesa de reformas no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU).

“Entre a ação dos que provocam guerras e a omissão dos que preferem se calar, a ONU está mais uma vez paralisada. O Brasil e a Alemanha defendem, há décadas, uma reforma que recupere a legitimidade do Conselho de Segurança”, ressaltou o líder brasileiro.

Maior economia da Europa – A Alemanha é a maior economia da Europa e terceira maior do mundo, com população superior a 84 milhões de pessoas e PIB nominal superior a US$ 5 trilhões em 2025. O país é o quarto maior parceiro comercial do Brasil, com fluxo comercial bilateral de US$ 20,9 bilhões no ano passado. A Alemanha constitui, ainda, a sétima origem de investimentos diretos no Brasil, com estoque acumulado de US$ 44 bilhões.

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